terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

E tenho dito

Greve dos caminhoneiros no Chile em 1972
Por Enilton Grill 

Tive a sorte de nascer numa família profundamente politizada e o azar de nascer em plena ditadura militar. Sou de 1965 e cresci durante os anos de chumbo e sob o regime dos coturnos e do medo. Em 1973 eu tinha 8 anos de idade. Poderia dizer aqui que me lembro (nesta época) do meu pai (à meia voz) murmurando qualquer coisa com minha mãe sobre algo no Chile.
Mas não é verdade.
Não lembro de nada do dia 11 de setembro daquele ano.
O que não significa dizer que não sei o que aconteceu no dia 11 de setembro no Chile.
Sei o que aconteceu naquele dia e nos meses e anos que antecederam e que sucederam aquele dia. Sei, por exemplo, que em maio de 1973, os empresários chilenos patrocinaram uma greve no transporte urbano. E que um ano antes, em outubro de 1972, eclodiu a greve dos caminhoneiros que foi seguida por uma greve no comércio, nos transportes urbanos, nos hospitais particulares etc. Era uma greve insurrecional da burguesia.
Derrotada nas urnas, a direita não via outra alternativa a não ser inviabilizar o governo da Unidade Popular e pavimentar o caminho para o golpe.
Neste período mais de trezentas mil cabeças de gado foram contrabandeadas e dez milhões de litros de leite atirados nos rios para que não chegassem nas mesas das crianças pobres. A terra não foi semeada e a produção de alimentos quase parou.
Em pouco tempo começou a faltar alimentos nas grandes cidades.
Proliferou o mercado negro e incentivou-se o processo inflacionário.
Corre o vento e o rio passa e o que se passou lá se passa cá.
Desnecessário dizer (até porque eu já disse) que tudo isso (tanto lá como cá) foi tramado para desestabilizar os governos de lá e de cá e criar as condições para o golpe que se deu lá.
Mas que se depender de nós (e depende) não se dará por cá.
Isto eu ainda não tinha dito e resolvi dizer enquanto me é permitido dizer o que eu quiser dizer.
E tenho dito.


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