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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

A GALINHA FUGIDIA - Enio Andrade


Eu tinha mais ou menos cerca de doze anos quando o fato aconteceu. Certa manhã minha mãe me chamou e disse que precisava que eu fosse até a casa da Lurdes. A Lurdes era uma amiga do tempo de sua juventude que tinha perdurado, talvez a única. Minha mãe tinha uma vida muito difícil e eu estava incluída, mesmo sem ter escolhido. Eram muitos irmãos, muita demanda.

O dia mal começava e já tínhamos que sair para dar conta de nossa sobrevivência. Naquele dia os “acontecimentos”, que era como chamávamos nossas dificuldades começaram cedo. O gás acabou um pouco depois das dez horas da manhã. Justo naquele dia em que minha mãe iria fazer um arroz com galinha. A galinha nos foi dada por um pai de santo amigo de minha mãe. Era uma sobra de um “trabalho” que lhe fora encomendado.

- vai lá na Lurdes e pede pra ela fazer uma comida.

Eu assenti com um gesto de baixar a cabeça. Minha mãe passou a mão em um balaio e botou a galinha ali dentro. Esqueci de mencionar que a galinha estava viva. Não era incomum que as pessoas matassem as galinhas em casa. Eu mesma já tinha visto muitas vezes minha mãe matar várias. Confesso que não era uma coisa boa de se ver. A pessoa pegava a galinha e começava a girar a bicha no ar até que o pescoço quebrava e pronto. Outras colocavam uma das mãos na base do pescoço da galinha enquanto colocavam a outra mão mais próxima à cabeça e puxavam as duas mãos ao mesmo tempo e em sentido contrário.

O balaio tinha duas tampas, minha mãe me advertiu para que não o abrisse.Fui andando na direção da casa da lurdes. A lurdes morava a cerca de dez quadras de nossa casa. Era ali no centro, bem pertinho. Fui andando distraída como era o meu costume, atenta a tudo que fosse curioso e desatenta com o restante. Ao chegar à rua almirante

barroso parei porque era uma rua muito movimentada e minha mãe sempre dizia para tomar cuidado.

Minha mãe não precisava nem sair de casa para tomar conta de mim, estava em minha cabeça como uma espécie de consciência. Sempre dizendo, faça isso, faça aquilo, com aquela sutileza de locomotiva, que ela não me ouça. Ao parar para olhar para os dois lados tive a curiosidade de conferir se estava tudo bem com a galinha.

Mal abri a tampa do balaio e a galinha num gesto abrupto a empurrou com a cabeça e saltou para a liberdade. A galinha devia estar com muito medo porque só o desespero nos faz tão corajosos, mas o que estou dizendo? Passado aquele primeiro momento de surpresa comecei a me desesperar, e agora? Minha mãe vai me matar.

Precisava fazer alguma coisa. Não conseguia pensar direito, a imagem de minha mãe ouvindo sobre a perda da galinha povoava a minha cabeça de uma tal maneira que sobrava pouco espaço para uma reação. Enquanto eu me debatia em lamentações a galinha já tinha atravessado a rua movimentada e estava parada bicando o chão em busca de algo para comer, pensava eu.

A imagem da galinha ali parada recobrou em mim alguma esperança, quem sabe eu a pudesse recuperar e apagar de minha mente aquelas cenas horríveis em que minha mãe me tirava o couro. Decidi ir atrás da galinha, atravessei a rua resoluta e com uma determinação que não julgava possuir, devia ser algum arroubo de coragem apreendido por mim de algum personagem daquelas fotonovelas intermináveis que eu lia com tanto gosto em um dos poucos intervalos que aquela vida miserável me permitia.

A galinha continuava lá impassível, parada ali como se quisesse me desafiar. A liberdade daquela galinha era como uma afronta dentro da minha forma de pensar naquele instante. Fui me aproximando devagar como quem tem uma estratégia definida. Quando cheguei perto o suficiente para dar o bote a galinha deu um salto e iniciou uma corrida entre os carros que estavam estacionados.

Depois que eu me cansei ela parou e ficou escondida embaixo do carro junto a uma roda. Fiquei parada e enquanto descansava um pouco pensei que aquele jogo de

gato e rato poderia durar horas e comecei a me desesperar. Agora só um milagre poderia me salvar. Foi aí que apareceu aquele anjo em minha vida. Não sei de onde vinha, pouco me importava, têm horas que só precisamos que as coisas aconteçam, não precisamos de explicação e nem significados.

O homem parou e sorriu para mim. Perguntou o que uma menina fazia ali espiando embaixo de um carro. Contei tudo a ele da forma mais resumida que consegui. Ele pediu que contasse de novo porque eu estava tão ansiosa para resolver aquilo tudo que atropelei as palavras e engoli sílabas. Voltei a contar tudo com mais calma e ele entendeu. Mal terminei e o homem se abaixou e deu uma boa olhada na galinha. Chegou perto de mim e quase cochichou no meu ouvido.

A estratégia era simples, enquanto eu atacava por um lado ele esperava do outro e procurava num só gesto conseguir êxito. Toda aquela confusão terminou de uma forma repentina. O homem capturou a galinha de uma forma tão eficaz que aquilo ficou cristalizado em minha memória, jamais esqueci. Depois de agradecer ao homem me dirigi à casa da lurdes e esperei que a galinha cumprisse seu destino. É claro que minha mãe nunca soube do acontecido.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

NEGOCIAÇÃO - Enio Andrade



O homem chegou à rodoviária esbaforido, precisava fazer uma dieta urgente. Foi direto ao guichê, não sabia ao certo se ainda era possível conseguir uma passagem para o interior. Era caso de urgência, um parente seu estava entre a vida e a morte. Não é que o moribundo fosse um seu chegado, é que esse tio distante tinha uma infinidade de campos e quem quisesse ser merecedor de alguma terrinha tinha que se fazer presente. Comprada a passagem se dirigiu ao box e embarcou no ônibus de pronto. Acomodou-se e ficou pensando em como seria sua chegada na casa do tal tio, o que diria? depois de tanto tempo... ainda não tinha passado cinco minutos quando começou a ficar ansioso quanto à partida do ônibus. Olhou pela janela e avistou três homens conversando, sabia que eram motoristas porque usavam aqueles uniformes horríveis, sempre com uma cor berrante.

Os homens pareciam felizes, riam muito. Quem é que pode estar feliz em uma situação dessas, o homem está lá num morre não morre. A conversa parecia ter terminado, um dos homens se dirigiu para o “seu” ônibus, entrou e deu a partida. Ufa, pensou o homem, Agora vai! O motorista ligou o motor e desceu, acendeu um cigarro, era o tempo de o motor esquentar. O homem não pode deixar de soltar uma imprecação, mais essa!

Foi aí que ouviu a batida na janela, ué quem poderia ser, ninguém sabia de sua partida. olhou pela janela e avistou um guri, não tinha mais do que uns treze ou catorze anos. Trazia junto ao corpo um tabuleiro de madeira lhe pareceu, coberto com um guardanapo grande de tecido. Ah, um vendedor pensou o homem, estava demorando. Abriu a janela com impaciência e ficou olhando para o menino com desdém.

-bom dia senhor, quer comprar uma rapadurinha?

O homem nem respondeu, fechou a janela num movimento rápido. Ainda bem que o ônibus já vai sair, pensou. Olhou pela janela em direção ao local em que o motorista se posicionara. O cigarro já estava pela metade, o homem já não se aguentava de tanta ansiedade. Outra vez ouviu a batida em sua janela. Dessa vez ao abrir já não demonstrava aquela paciência que tinha tido na vez anterior. O menino voltou à carga.

-Senhor, pode pelo menos comprar uma?

O homem começou a gritar com o menino.

-Sai daqui moleque, não se enxerga, não?

Nem bem terminou a frase se deu conta que junto com as palavras algo mais se desprendeu de sua boca. Olhou para baixo e avistou sua ponte móvel que parecia rir de sua situação. Cinco dentes arranjados em uma superfície de metal, olhando assim não pareciam fazer a menor diferença ou falta. Mas, para o homem representavam a metade de seu sorriso, e agora? o homem começou a suar e sentiu que seu corpo estava pegando fogo. Olhou para o motorista e lhe pareceu que o cigarro já estava no final.

O menino estava impassível esperando a reação do homem. O homem analisou a situação, viu que não tinha saída. Se pudesse descia do ônibus e iria atrás do guri, qual o quê, imagina se teria condições de correr atrás daquele guri? Nem se passasse toda a vida correndo.

Olhou de novo, o motorista já apagava o cigarro no chão com uma pisada definitiva. Por sorte entrou na rodoviária mais uma vez. Devia ser a última ida ao banheiro, agora o tempo que o homem ainda tinha se esvaía com uma velocidade de cronômetro. Olhou para o menino e disse:

-Me dá duas.

Agora a situação era diferente, o menino estava em vantagem e respondeu com uma pergunta:

-duas?

O homem começou a alucinar, parecia enxergar o motorista saindo da rodoviária e entrando no ônibus. Não adiantou nada ser generoso e comprar duas, sentiu que estava indo para um caminho sem volta.

- tá bom, me dá cinco, cinco não, me dá dez.

O guri olhou para o homem, seu olhar zombeteiro traduzia o sentimento de quem estava esperando por aquela oportunidade.

-dez ?

O homem resolveu capitular, não tinha mesmo como resolver aquela situação de outra maneira.

- tá bom, me dá todas . . .

O guri fez o cálculo, o homem passou o dinheiro e ficou com um sacão de rapaduras. Apesar de tudo não se sentia derrotado, afinal de contas estava de posse do seu sorriso outra vez. Em seguida o motorista apareceu e o homem teve uma sensação de alívio.

Mal o motorista entrou no Ônibus e foi dar início à viagem o motor apagou, era o fim da viagem, agora só teria outro horário no próximo dia. O homem desceu do ônibus e foi andando em direção à sua casa, abriu o saco e comeu a primeira rapadura, o caminho seria longo.

Enio Andrade

terça-feira, 21 de junho de 2022

AUTORIDADE - Enio Andrade

           


                                

          Huguinho estava com um problema de fácil resolução. Possuía dois aparelhos de som, o seu preferido foi das primeiras coisas que comprou quando começou a trabalhar, o outro adquirira há pouco. Um amigo de sua irmã apareceu em sua casa com o aparelho, queria viajar para a Espanha e não tinha dinheiro suficiente. Passada a sua hora de boa ação, pensou: o que faria com dois aparelhos de som? Não que isso fosse um grande problema em sua vida. Mas, pra quê? Ficava incomodado em ter coisas das quais não precisasse. Botou um anúncio na parte de classificados, era moda naquela época em que as pessoas ainda liam jornal. 

          Não demorou três dias e apareceu um interessado. O suposto comprador se apresentou e examinou o aparelho. Após um teste verificou que tudo estava funcionando. Na hora de pagar argumentou que estava sem dinheiro, mas, que assinaria duas promissórias, as quais resgataria logo que não mais estivesse a descoberto. Huguinho concordou sem pestanejar, afinal a troco de que o tal homem não resgataria as tais promissórias, sobretudo com valores tão baixos.

          Passado cerca de um mês do ocorrido Huguinho ligou para o comprador. Ninguém atendia naquele número. Ligou de novo no outro dia e nos outros dez dias subsequentes. Foi só depois do décimo dia que logrou êxito em suas tentativas. Uma mulher atendeu e explicou que o tal homem era um conhecido malandro que por uma dessas rasteiras do destino fora seu namorado e volta e meia usava o número do seu telefone em seus golpes. Pediu desculpas a Huguinho e desligou. Nem é preciso dizer que Huguinho ficou desolado com o acontecido. Não era pelo valor que estava vendo sumir no horizonte e sim por aquela sensação que estava sentindo, fora feito de bobo, se sentia o otário da vez.

          Ficou metabolizando aquela raiva por uma semana. Em conversa com seu irmão mais velho foi aconselhado a procurar Adroaldo que era um conhecido advogado e amigo da família. Adroaldo era amigo de seu irmão há muitos anos, serviram juntos no serviço militar e eram solidários nos piores segredos.

          Huguinho procurou Adroaldo e o colocou a par de tudo, na verdade o que sabia do malandro não era muito. Além do número do telefone, que sabia ser de outra pessoa, só sabia o nome, se é que era verdadeiro, nunca se sabe, com esse pessoal.

          O advogado o tranquilizou, deixasse com ele, tinha muita experiência com esses malandros. Conhecia a psicologia dessa gente, eles vivem disso, não fossem esses golpes teriam que trabalhar e ser como eles, gente decente.

          Além disso, argumentou Adroaldo, conheço muita gente na polícia, se tem gente que sabe lidar com esses malandros é o pessoal da polícia. Me dá uma semana, disse. Huguinho saiu dali aliviado, que bom ter vindo procurar o advogado, agora tinha certeza que o tal imbróglio seria resolvido e aquele sentimento de ser enganado seria esquecido. A única coisa que lamentava era ter que ter pedido um favor desnecessário, não gostava de depender de ninguém, paciência, pensou.

          Em menos de uma semana Adroaldo já tinha em suas mãos todas as informações sobre o malandro. Era estelionatário contumaz, pequenos golpes eram a sua especialidade. Adroaldo resolveu que não iria ocupar seus amigos da polícia com aquele peixe pequeno, vou cuidar desse malandro pessoalmente, onde já se viu, essa gente perdeu o respeito. Foi até a casa do malandro, porém, chegando lá não logrou êxito. O dito cujo morava com a mãe, imagina a desfaçatez do crápula, ainda envolvia a velha em seus golpes. Deixou o recado em tom ameaçador: ele que me procure, caso contrário vou ter que tomar providências!!

          Assustou bem a mãe do malandro e marcou o encontro em seu escritório para dali a dois dias. Durante esse tempo ficou devaneando sobre como iria acabar com aquele sujeito. Afinal de contas não era só uma questão de se saber quem manda, era também uma questão de mostrar àquele marginal quem é mais esperto.

          No dia marcado chegou ao seu escritório cerca de meia hora mais cedo. Era suficiente para se preparar. Próximo das nove horas se ajeitou na cadeira e pensou, esse malandro não vai nem se atrasar. Nem bem o pensamento se desvaneceu e ouviu alguém batendo à porta. Ah, viu só, eu sabia, esse malandro tá no papo. Se ajeitou na cadeira e gritou um entra como se estivesse em uma feira livre. A porta foi abrindo aos poucos, como se a pessoa que estava entrando hesitasse. Adroaldo, embora não demonstrasse, estava envolvido por uma sensação triunfalista. 

          O malandro se mostrou, e parecia, perdido, foi entrando devagar, a cabeça baixa, parecia procurar algo no chão. Oi doutor, tudo bem? Falou finalmente, como se fosse uma súplica. Adroaldo nem deixou o homem seguir naquela introdução. Desandou a falar com o malandro como se fosse um inspetor de escola de cunho religioso. Onde é que já se viu? Aplicando um golpe vil em gente decente, o mundo está perdido mesmo . . . de passagem citou suas amizades e finalizou dizendo um, como é que vai ser? em tom de ameaça.

          Depois de ficar em silêncio por um momento o homem começou a falar. Uma fala arrastada, disse que se arrependia de ter agido daquela maneira. Me perdoe doutor, se eu pudesse mudar a minha vida, ah se eu pudesse . . . dava pena.

Adroaldo voltou a carga, como é que ficamos? O homem falou, tem um jeito! Tenho um vídeo cassete no conserto, posso vender rápido por um bom preço e acertar tudo com o senhor. O advogado fez uma careta, enfim, era o único jeito. Está bem, disse.

          O malandro voltou à carga, é que eu estou desprevenido. O advogado nem falou nada, só puxou a carteira e disse, quanto? O malandro falou o valor.

          Foi tudo muito rápido, o advogado agradeceu a partida do malandro com alívio enquanto guardava a carteira. Nem bem o malandro desceu dois lances de escada e Adroaldo já estava se sentindo como Huguinho.


quarta-feira, 4 de maio de 2022

PARANOIA - Enio Andrade


         A noite tinha sido ótima, era a primeira vez que eu tocava naquela casa. Mesmo cansada, estava me sentindo muito bem. Pode parecer clichê dizer isso,  mas, me sentia como alguém que cumpriu uma espécie de missão. Fui saindo da festa recém terminada, o pessoal que trabalhou estava no final do serviço, cada um pensando em ir para sua casa descansar. A boate ficava ali no centro, na volta da praça, como dizemos por aqui, próxima ao mercado. Já tinha ligado para a Aparecida, combinamos que ela me levaria para casa, era uma tradição nossa, gostávamos de ir para casa conversando sobre a festa e de como nos sentíamos sobre nós e tudo o que nos cercava.
           Naquela noite ela não pudera vir à festa porque estava estudando, tinha uma prova importante na segunda, mesmo assim combinamos que no final da noite nos encontraríamos. O telefone tinha tocado algumas vezes e nada de ela atender, deixei uma mensagem e nem esquentei, vai ver ela dormiu ou algo assim. Olhei para cima e percebi que já começava a amanhecer. Ali no centro à essa hora tem bastante movimento. Pensei que não teria perigo nenhum se eu fosse caminhando até minha casa, afinal de contas moro pertinho do centro, umas dez quadras, se tanto. Nem seria preciso dizer que pensei que poderia ser perigoso, claro né, sendo mulher nunca se tem essa sensação de segurança absoluta.
           Nessas todas já tinha caminhado duas quadras, uma na rua XV de novembro e outra na rua Tiradentes, me aproximava do prédio dos correios na esquina da Félix da cunha. Foi quando percebi que uma espécie de neblina começou a baixar e me cercou de tal maneira que num primeiro momento não conseguia enxergar nada. Aos poucos foi melhorando e eu conseguia divisar cerca de vinte metros a minha frente, foi quando eu a avistei. Que bom pensei, uma mulher ia a cerca de uns dez metros de distância. Poxa que bom, o natural seria me aproximar e irmos juntas até quando fosse possível e necessário, dada à situação. Não sei porque não a chamei, acho que foi uma coisa de intuição.
          Em seguida a tal mulher olhou para trás pela primeira vez. Me deu a sensação de que ela começou a acelerar o passo. Parecia a mim que a tal mulher procurava disfarçar uma preocupação que começava a sentir, como se não quisesse que a outra parte percebesse que fora descoberta. Não se passou nem um minuto e a mulher olhou para trás outra vez, dessa vez não se preocupou em disfarçar, acelerou o passo com desfaçatez.
          Foi aí que comecei a me preocupar de verdade. Mas, o que essa mulher está vendo que eu não consigo enxergar. Olhei para trás e não via nada, aquela neblina parecia ser cúmplice de quem quer que estivesse produzindo aquela súbita desconfiança. Agora que a mulher não precisava mais disfarçar começou a olhar para trás a cada dez segundos, era o que eu pensava, afinal de contas quem prestaria atenção em alguma coisa naquela situação. Depois desse momento parece que não existia mais nada no mundo, éramos só eu, a mulher, a neblina e a tal “aparição”.
          A mulher acelerou tanto o passo que já parecia a mim que ela corria. Comecei a sentir um medo tão grande que também acelerei o passo, minha intenção era me aproximar da mulher o suficiente para que ficássemos juntas na hora derradeira. Meu sentimento era de derrota, mas, também era de empatia, queria que estivéssemos juntas naquela situação que já parecia irremediável. Fiquei me culpando, se eu não fosse tão teimosa, para que eu fui me expor a tamanho perigo.
          Agora a situação parecia fora de controle, a mulher corria sem olhar para trás, parecia que começava a gritar, digo que parecia porque eu não conseguia mais raciocinar, tal era o medo que estava sentindo. Meu coração desandou a bater descompassado, minha cabeça latejava, não sabia como minhas pernas estavam aguentando tudo aquilo. Foi quando eu parei de correr, não sei o porquê, era uma coisa estúpida a fazer, naquela situação desesperadora. De repente estaquei e disse quase gritando, peraí !!
          Neste instante tudo se esclareceu, a neblina se desvaneceu e pude enxergar a mulher correndo, já ia longe, ouvi uma buzina. Era a Aparecida que dizia com um sorriso, desculpe, cochilei. O carro andou um pouco e ao passarmos pela mulher pedi à Aparecida que parasse por um momento, olhei para a mulher e dei um tchauzinho irônico, afinal nós duas sabíamos o que havia acontecido. Depois contei tudo à Aparecida e nos rimos daquela estória, até hoje.

ENIO ANDRADE é um consistente escritor pelotense 
se destacando como romancista que surge no cenário literário.
Recentemente lançou o romance "Dandara e a Princesa" a respeito do qual já comentamos em  A METADE SUL .
Acesse o link para ler 

 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

TAILLEUR - Enio Andrade



 Acordei atrasada, justo no primeiro dia, hoje começo uma nova etapa

em minha vida. Fui transferida há pouco, foram cinco anos de exílio

voluntário no interior do estado. Não é que eu não gostasse da vida mais

tranquila e previsível, eu até gosto, questão de temperamento. Poder ser

quem você é, pelo menos para mim. Desfrutar de uma certa proximidade

entre as pessoas, poder vestir-se sem querer impressionar ninguém, o ponto

mais próximo da informalidade que é possível de ser atingido.

Minha semana foi só atribulação, fiquei perdida entre a mudança e a

transferência de tudo o que eu estava fazendo ao meu substituto. O único

dia que sobrou foi o sábado. Decidi passar a tarde no shopping procurando

alguma coisa que eu pudesse vestir nos primeiros dias. Meu guarda roupas

estava entre roupas de festa, descobri cedo que teria poucas oportunidades

de usá-las, e roupas do dia a dia, minha Mãe as chamava “uniformes”,

essas com as quais a gente se acostuma.

Todo o meu esforço transformou-se em uma única roupa. Podia não

parecer, mas aquele tailleur sintetizava tudo o que eu precisava, pelo menos

era o que eu estava pensando, transmitia toda uma formalidade e era

discreto. Ainda mais naquela cor, se alguém não quer ser notado o cinza é a

cor perfeita.

Mesmo tendo acordado cerca de uma hora antes estava atrasada,

perdi um tempo precioso alisando meu cabelo, às vezes ele se revolta. Ah

que saudade, mas o que é isso, mal saí de lá e já quero voltar. Tentei pensar

que é pra frente que se anda, essas coisas de autossugestão que a gente usa

pra se convencer de que o pior pode ser bom pra gente.


O táxi me deixou aos pés da escadaria que conduzia ao foro. A

subida foi penosa, a falta de costume com aquele salto alto começava a

apresentar a sua conta. O caminho até o elevador foi de sofrimento e

estupefação, o prédio novo do foro não ficava devendo nada a nenhum

palácio. Em todos esses anos confesso que vim pouco a capital.

Cheguei ao elevador exausta, o sapato me matando, já nem

conseguia raciocinar direito. Mal entrei e me deparei com o lugar destinado

a ascensorista vazio. Aquele banquinho minúsculo nunca me pareceu tão

confortável, nem pestanejei, sentei logo e uma sensação de alívio me

envolveu. Nem pude aproveitar muito, logo apareceu um gaiato que sem

sequer me dirigir um olhar falou como um mandatário:

Oitavo !!

Que coincidência pensei, o mesmo andar, apertei o botão sem

pestanejar, afinal de contas também estava indo para lá e não custava nada.

Não pude deixar de notar que o homem estava vestido com esmero. Em

seguida entrou outro homem com o mesmo padrão e cumprimentou o outro

com um sorriso entre dentes e simplesmente falou:

Oitavo !!

A capacidade do elevador era para cerca de doze pessoas, foram entrando e

repetindo:

Oitavo !!

O que me surpreendeu não foi a forma breve em que se deu a

lotação, mas, a maneira como as pessoas se dirigiam a mim. Depois da

primeira vez em que apertei o botão do oitavo andar não achei que fosse

necessário repetir o gesto. No entanto, todos que entraram no elevador se

dirigiram a mim sem ao menos se dignarem a me lançarem um olhar. Que

gente mal educada pensei, alguns até demonstravam certa contrariedade ao

acharem que eu não apertara o botão. Ficaram cochichando entre si,

provavelmente reclamando da minha morosidade.

Mal chegamos ao nosso destino, assim que a porta abriu, e as pessoas

se evadiram em um tropel. Deu até medo de tentar sair e ser atropelada. Ao

passar pela porta da sala de audiências pude notar que metade daquelas

pessoas estava sentada ali, provavelmente esperando a sua vez de

testemunhar. Entrei por uma porta lateral e após me identificar para o

secretário de audiências me dirigi ao meu lugar. Assim que sentei na

cadeira dei um bom dia a todos e declarei aberta a audiência. Precisei

repetir a minha fala pois notei que todas aquelas pessoas estavam atônitas

me olhando. Não pude deixar de pensar que graças àquele tailleur pude

perceber que a minha vida de Juíza naquela cidade não seria nada fácil.


ENIO ANDRADE é um consistente escritor pelotense 
se destacando como romancista que surge no cenário literário.
Recentemente lançou o romance "Dandara e a Princesa" a respeito do qual já comentamos em  A METADE SUL .
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quarta-feira, 24 de novembro de 2021

O MATADOR DE INSTANTES - Enio Andrade

foto P.R.Baptista

     Amorim era um funcionário público que vivia sempre em contradição, não sabia muito bem o que queria da vida.  Sua vida no trabalho era como todo o seu cotidiano, maçante e incipiente. Porém, ele gostava de pensar que tinha ali em algum lugar dentro de si uma certa dose de sensibilidade, difícil era isso se manifestar em meio a essa sua condição cultural. Durante o dia estava sempre em contato com essas pessoas comezinhas que só falavam sobre coisas vãs, conversavam também sobre coisas vis, se é que vocês me entendem, à noite ficava passeando pela cidade a procura não se sabe de que. Enfim estava cansado de tudo aquilo, nada acontecia. mesmo seus relacionamentos amorosos, que diga-se de passagem eram muitos, não faziam diferença nenhuma. Sua vida começou a mudar quando ele conheceu Rebeca, ao contrário de seus outros casos essa mulher era diferente, uma mulher refinada sem dúvida. Com ela ele experimentou uma vida bem próxima do que ele imaginou em seus devaneios. Ela o levou a outros ambientes, onde ele pode entender não só que outra vida era possível, mas que principalmente esta vida estava bem ali na sua frente só esperando que ele a agarra-se. A proposta era tentadora, nunca mais ele iria enfrentar o mais do mesmo, que era como chamava a sua vidinha.

          Começou a se interessar por outras coisas e como era de seu costume, gostava de ir a fundo em tudo o que fazia, mesmo autodidata, até que obtinha êxito em suas tentativas na busca de mais conhecimento. Foi assim que começou na fotografia, foi quase por acaso. foi Rebeca, sempre ela, que o apresentou a um fotografo profissional que na época estava trabalhando em uma revista. não se sabe por que, talvez nunca saibamos, o fato e que a fotografia tomou conta de sua vida. Parece que ele sempre esperara por aquilo, era um encantamento só. Ele não sabia como começou, mas pensava cada vez mais em eternizar o instantâneo, era assim que ele falava, parecia que aquilo não era só como a maioria das pessoas encara aquilo que faz, uma atividade que tem um fim em si mesma. Para ele não, era muito mais do que isso, é difícil explicar, mas, era como se sem a fotografia ele nunca tivesse respirado. Abandonou o serviço público e foi viver só da fotografia, foi aí que começou a ficar cada vez mais arredio.                  

          Rebeca logo notou e após algum tempo o deixou, fato que só fez piorar o seu distanciamento da realidade, começou a usar drogas e a ficar cada vez mais confuso, não sabia mais o que era ele ou o que era sua arte, era assim que ele chamava as suas fotos. às vezes mal amanhecia e ele já estava na rua, procurando não se sabe bem o quê? alguma nuance de luz, um olhar diferente, um rosto com significado, ou, a beleza da simplicidade das pessoas passando em um instante de suas vidas comuns e especiais ao mesmo tempo. Foi assim que desenvolveu o seu poder de observação para descobrir o que nem todos viam e ele escolheu entre o que via o desespero, começou a ter uma atração mórbida por esses flagrantes. 

          À noite, quando ele examinava o material do dia transcorrido, os momentos de desespero eram os que mais o excitavam, mexiam com ele e ele não sabia como aquilo acontecia. Passou então a sair e procurar só pelos desesperados.

           Num dia qualquer entrou em uma lojinha para comprar incenso, passara o dia atrás de uma novidade e próximo de casa, já cansado, tivera aquela ideia, após pagar o incenso quase na saída ao olhar para o lado notou que havia uma máquina fotográfica muito antiga em um canto da loja, parecia estar à venda. Resolveu perguntar ao dono quanto custava, quem sabe se fosse possível, talvez conseguisse restaurar e vender por um preço melhor. Após regatear um pouco o cara resolveu negociar e ele levou para casa aquela relíquia, ao chegar foi logo manuseá-la, até para saber se estava funcionando. 

          A única coisa viva que tinha em casa era uma um peixe dentro de um aquário, fora presente de Rebeca. Só não sabia como ele ainda sobrevivia naquele ambiente sem nenhum cuidado, às vezes, à noite, quando se lembrava de comer atirava alguma sobra para o pobre. Resolveu fotografar o bicho, claro que antes usou a sua dose habitual, ao começar a sequência teve um pensamento maravilhoso, e se ele conseguisse com aquela máquina capturar o instante supremo daquele peixe, como se depois daquele instante ele não conseguisse mais ser um peixe maravilhoso que era naquele instante que já havia passado, que maluquice. Ah, se isso pudesse ser verdade, era isso que o levara até a fotografia. Em seguida dormiu, já não se aguentava mais.

           No outro dia acordou cedo e saiu como sempre atrás de seus olhares desesperados. Levou a máquina consigo, conhecia um fotografo mais velho que manjava dessas coisas mais antigas. O lugar ficava no outro lado da cidade. No caminho até lá poderia aparecer alguma oportunidade, que nada, o tempo passava e nada. Um gato estava brincando com uma lata, usou a máquina antiga, logo em seguida encontrou dois mendigos numa esquina usou outra vez, após não encontrou mais nada. 

          Ao chegar à lojinha do fotografo deixou a máquina para ser avaliada e pediu para que ele ligasse à noite porque não pretendia vir para aqueles lados no outro dia. Pediu ainda, que se ele soubesse de algum interessado em negociar a máquina o avisasse logo, pois estava precisando muito de uma lente nova, desde que deixara o serviço público nunca mais pudera adquirir um material novo, vida dura a de artista. 

          O resto do dia transcorreu na normalidade, ao chegar em casa sem praticamente nenhum material foi direto para a sua dose cotidiana de relaxamento compulsório. Foi depois de a droga fazer efeito que notou o peixe boiando no aquário, ficou num misto de surpresa e algum medo, porque recordou aquele pensamento que havia tido na noite anterior, começou a se sentir muito mal e pensou que ia ter um ataque cardíaco de tão velozes eram as batidas de seu coração. 

          Acordou sem lembrar de como conseguira chegar até a cama, maldita droga, a Rebeca tinha razão quando disse que ela ainda iria acabar comigo, a droga não, a Rebeca. Saiu logo, muito assustado, porque lembrou que havia fotografado o gato e os mendigos com aquela máquina. Estava ficando louco, como isso podia ser possível. Deixa pra lá, no caminho telefonou para o fotografo velho e nada, só chamava. Que droga, quando a gente mais precisa as coisas nunca acontecem.

           Foi atrás do gato e dos mendigos, chegando naquela esquina não encontrou nada, após algum tempo encontrou um camelô que estava vendendo a sua mercadoria e perguntou pelos mendigos só para ficar mais tranquilo. A resposta dele gelou todo o seu sangue imediatamente, contou que alguém colocara fogo neles na madrugada passada e que não foi possível ajuda-los, pois não havia ninguém na rua àquela hora, agradeceu e ficou alguns momentos absorto. Após, deu alguns passos e se deparou com o gato, o mesmo gato do outro dia, estava em um canto do beco morto. Nem quis saber como acontecera, já sabia que ele de alguma maneira tinha sido o responsável, mas não queria pensar nisso agora, estava concentrado em chegar logo à loja do fotografo velho.

           Chegando lá estranhou a loja estar fechada, eram só três da tarde será que havia acontecido alguma coisa grave. Que piada, será que não bastava o seu desespero. Foi aí que uma mulher se aproximou e disse que o fotografo havia deixado um pacote para um rapaz que correspondia com a descrição de sua aparência, ele agradeceu a mulher e abriu logo a caixa, dentro estava a máquina e um bilhete breve, estava escrito: parabéns você conseguiu o que queria, agora você e um matador de instantes, após ele caiu e nunca mais se levantou, de maneira metafórica e claro.


domingo, 15 de agosto de 2021

"DANDARA E A PRINCESA", ROMANCE DE ESTRÉIA DE ENIO ANDRADE


Conheci Enio Andrade um pouco por acaso. 

Aqui na frente de minha casa na parte da cidade que intitulei Entorno do Café Lamego, que tanto chamou a atenção pela proposta de preservar a pavimentação de pedra, quando soube que era escritor.

Descobrindo nosso interesse comum pela Literatura , nossa conversa foi tendo outras oportunidades, mais adiante me deixou um texto que publiquei em A METADE SUL e, por fim, sabedor que escrevia um romance,  acompanhei alguns desdobramentos de seu envolvimento com a conclusão.

Pois nesta sexta esteve aqui, entrou no espaço que estou preparando para abrir a GALERIA CAMARA CLARA,  e me deixou uma cópia, impressa em 150 páginas de papel o    ficio.

O romance , intitulado DANDA E A PRINCESA, tem sua ação desdobrada em Pelotas, como o título sugere, num relato bastante elaborado a demonstrar a capacidade do autor de explorar a trama. 

Tenho agora que ler com mais calma para escrever alguma coisa, vai me exigir bastante atenção.

Anteriormente já tínhamos publicado em A METADE SUL o conto de Ênio Andrade "SOLIDARIEDADE E MORTE "  

Já tinha, também,  se incorporado ao nosso grupo Silvia Regina King Jeck que escreve um romance tendo como pano de fundo a pavimentação de pedras das ruas de Pelotas, pavimentação esta que, infelizmente, está ameaçada.

CÃMARA CLARA começa assim, no seu processo de instalação, a abrir espaço para artistas, sejam escritores, fotógrafos, pintores, atores, etc.



segunda-feira, 20 de julho de 2020

"SOLIDARIEDADE E MORTE", UM CONTO DE ÊNIO ANDRADE

     
foto P.R.Baptista

Arlete tem 58 anos e toda a sua vida foi dedicada a ajudar os outros. Desde menina aprendera com a mãe a importância do trabalho, em se tratando de sua geração, era uma obrigação a mulher ser responsável pelo serviço da casa, além da educação dos filhos.
     Seu pai era muito rígido, militar de carreira. Ela casou com o primeiro namorado, também militar, e sua vida foi sempre muito regrada, sem sobressaltos, não tinha nada de singular.
     Apesar desse casamento lhe dar uma filha, razão de sua vida, seu relacionamento sexual era quase uma obrigação para aliviar o marido, só soube que uma mulher podia gozar ouvindo as confidências de uma amiga de faculdade, quando voltou a estudar, fato que deixou seu marido muito desgostoso. Daí para a separação foi um passo.
     Embora fosse uma mulher muito sensível era também muito conservadora, por força de toda sua formação. Mas, num arroubo de coragem conseguiu se separar, foi muito criticada, porém, foi em frente. Depois de separada sua vida só melhorava. Formou-se em pedagogia e foi trabalhar na escola, uma das primeiras carreiras em que as mulheres tiveram algum espaço.
     Tudo ia muito bem, bem demais. Um dia à tardinha, depois da hora em que os alunos saiam, revisava um material para a aula do outro dia, quando foi informada que alguém queria falar com ela, ao telefone. Chegando lá, foi como se o chão tivesse se aberto a seus pés, sua única filha fora atropelada e estava a caminho do hospital. Acharam o número da escola anotado em uma agenda, dentro da bolsa da garota.
     No caminho até o hospital, rezou muito para que deus lhe desse essa oportunidade de abraçar e beijar sua filha novamente, e com vida. Tudo em vão. Chegando lá, encontrou sua filha morta, era o fim de tudo. Sua vida medíocre chegara ao fim, todos os seus esforços foram sempre pensando nela e agora não via nenhum sentido em continuar vivendo.
     Passados três meses do acontecido, Arlete ainda estava sob cuidados médicos e mesmo tendo passado a fase da medicação mais forte, parecia um zumbi. Para ela não existia dia e noite, pois sua rotina era um emaranhado de sombras em que passado e presente estavam sempre misturados e não faziam sentido algum. Andava pelo apartamento como se fosse uma sombra de alguém que já tinha existido. Sua única ligação com o mundo real era sua empregada, Marilu, que estava sempre ao seu lado. Marilu vivia dizendo que a patroa tinha que ter alguma atividade, que aquilo ia lhe fazer muito bem, etc . . .
     Numa certa manhã, Arlete estava olhando para a lixeira e num repente deu um grito ! Já sei !
     Marilu quase desmaiou de susto. Arlete tivera uma ideia que iria mudar sua vida.
     Cabelo de fogo aparecera do nada no lixão, era chamado assim pelos meninos que perambulavam por ali. Muito alto, usava sempre um macacão marrom, com um símbolo esquisito. Seu cabelo e barba muito vermelhos lhe conferiam uma aparência muito estranha, estava no lugar certo. Ali ninguém tinha passado nem futuro, todos eram anônimos, não perguntavam, nem queriam saber de onde os outros vinham. O que importava não era se a pessoa tinha nome. O que importava era o que ela tinha a oferecer. Estavam todos empenhados em uma procura, procuravam não só o seu sustento de todos os dias, também procuravam alguma possibilidade, alguma esperança. Ela devia estar muito escondida mesmo.
     Os meninos não entendiam nada do que cabelo de fogo falava, era uma língua muito estranha, coisa de louco mesmo. Apesar disso ele conseguia se fazer entender e era adorado pelas crianças. Estava sempre fazendo desenhos delas e também estranhas esculturas de material reciclável, o que por ali não faltava.
Marilu assustou-se muito do grito que sua patroa soltara.
O que é isso, patroa ?
Marilu, já sei o que vou fazer. Vou mandar comida para alguém!
Essa mulher é louca! pensou Marilu . . .
Falar isso era um pouco desnecessário, levando em consideração tudo o que estava acontecendo. Arlete estava ansiosa para explicar o que estava pensando fazer.
Marilu, vou mandar comida para um lugar onde tenha alguém precisando.
     Marilu ficou pensando, puxa, mas isso é o que mais tem. Porém, não quis falar nada com medo que a patroa levasse a mal. Arlete sempre pensara que aquela comida toda que ia fora todos os dias podia ter um destino melhor. Quando o governo falou que iria organizar a coleta e distribuição de toda aquela comida que era desperdiçada, ela ficara exultante, mas mesmo sendo difícil admitir a maioria das coisas que o governo diz que vai fazer não acontece. Podia ser mais uma daquelas campanhas de brincar com a boa vontade das pessoas. Mesmo assim, a mulher estava ansiosa para começar aquela empreitada a primeira coisa que pensou foi como ia fazer para que a comida chegasse ao seu destino da maneira mais direta possível. Não era muito fácil mandar alguma coisa pelo caminhão de lixo, além do que, não queria que o alimento chegasse ao seu destino em más condições. Não é porque a pessoa está precisando que vai ser obrigada a passar por situações constrangedoras. Nisso, Marilu podia ajudar, afinal, andava de achegos com o motorista do caminhão do lixo, todos diziam que aquilo ia dar em casório.
     Arlete estava feliz com a possibilidade de voltar a ter interesse por alguma coisa que não fosse uma obrigação, nunca tivera muita motivação para viver, isto é, nunca tivera tesão por nada a não ser sua filha. Era uma situação insólita. Fez questão de ela mesma cozinhar a comida, coisa que não fazia há anos. Tudo pronto, colocou em uma sacola que Marilu levou até o local onde o lixo era recolhido.
     Devido ao grande volume de lixo produzido no condomínio, a coleta era feita dia sim, dia não. Deocleciano era o motorista do caminhão do lixo há dois anos. Apesar da rotina massacrante com muitas horas de trabalho, e do cheiro insalubre, estava contente com o emprego. Chegou ali naquela cidade há somente cinco anos e já conseguira um certo equilíbrio em sua vida. Bem diferente de sua cidade natal onde só existia a fome.
     Deocleciano ficou emocionado com aquela estória. Estava surpreso com o fato de alguém fazer tudo aquilo para ajudar outra pessoa que está em dificuldade. Resolveu que ele mesmo levaria a comida dia sim dia não para o lixão e que lá resolveria a quem daria, não sabia porque mas pensou logo naquela figura estranha que vira vez ou outra por lá.
     Com isso, Cabelo de fogo passou a ganhar quase todos os dias, uma refeição saborosa, sempre acompanhada de uma sobremesa. Solidário, o homem dividia tudo com os meninos, seus eternos companheiros. Arlete ocupava quase todo o seu tempo em preparar aquelas refeições, ficava horas pensando em como variar o cardápio, decorar os pratos e ajeitá-los. Marilu era só alegria, nunca depois do acidente vira sua patroa com aquele entusiasmo. Do outro lado da cidade, Cabelo de fogo recebia aquela comida como se alguém tivesse carinho por ele, e isso, de alguma maneira, o reconfortava. O homem não lembrava de nada, de onde viera e nem como fora parar ali naquele lugar, esquecido por todos. Um inexplicável elo constituíra-se entre essas duas almas atormentadas.
     Amílcar estava há muito tempo no jornalismo, escolhera sua profissão ainda garoto, em um teste vocacional. Logo que entrara na faculdade, naquela época havia poucas, já começara trabalhando como foca em várias redações de grandes jornais. Ele aprendera com aquele pessoal da antiga, pois os caras não conheciam dificuldade, nunca se apertavam, bem ao contrário de hoje em dia, esses mauricinhos têm um monte de cursos e não sabem fazer nada, se tirar o computador deles ficam perdidos e são capazes de sair correndo. Por isso hoje não existe mais jornalismo de verdade com matérias, com investigação. Só existe um copiar do outro, que copiou do outro, que não acaba mais. Ele também foi vítima desse processo, seu chefe foi demitido porque eles queriam cortar os custos e botaram no lugar um garoto. Que filho da puta, pensou Amílcar. Ele o colocou nessa tal seção cotidiano e desde então percorre a cidade atrás de alguma estória interessante, com a sorte que tem . . .
     O lixão era um dos primeiros lugares de sua lista, aquele mauricinho, olha onde eu tenho que me meter. Se eu tirar alguma coisa daqui eu mereço um prêmio, pensou Amílcar. Começou perguntando para saber o que acontecia por ali. O dia foi passando e não acontecia nada. Nenhum indício que apontasse para algo que desse uma boa estória. Quando estava quase indo embora, notou aquela figura estranha, um homem muito alto, com pele muito branca, cabelo e barba vermelhos. Não fosse pela altura, pareceria um duende, uma daquelas figuras encantadas que só podem sair da imaginação de alguém. Amílcar ficou interessado, aproximou-se do duende gigante e tentou um contato. De primeira, não conseguiu nada, pois o homem não falava coisa com coisa. Para ser mais exato, o cara falava em uma língua desconhecida. De qualquer maneira, alguma coisa lhe dizia que aquele homem daria uma boa estória. Não sabia ainda como, mas iria descobrir. Tirou uma foto com o celular e agradeceu. É nessas horas que a gente descobre o lado bom da tecnologia, e foi embora. Antes de ir para casa, passou pela redação e pediu pro Genésio colocar a foto no sistema e ver no que dava. O cara é um cão farejador, portanto, se tiver alguma coisa ele descobre.
     Arlete seguia em sua nova rotina no preparo das refeições, procurava não mais pensar na sua vida anterior. Parecia que sua vida estava iniciando, estava ficando bastante envolvida, a ponto de começar a ter curiosidade e querer saber quem estava do outro lado, recebendo aquela comida. Marilu não achou boa aquela ideia, por pensar que qualquer proximidade com esse pessoal não seria nada bom. Arlete só sabia o que Marilu lhe dissera, o motorista do caminhão levava a comida direto pro lixão.
     Amílcar chegou cedo à redação, estava com aquela curiosidade característica dos jornalistas. Foi logo à saleta onde o Genésio trabalhava. Chegando lá, ficou boquiaberto com a descoberta do Genésio. Bem que ele intuíra que alguma coisa iria acontecer, ainda levou uma semana levantando a estória toda. O cara era um engenheiro desaparecido, por isso ele usava aquele macacão marrom de uma grande firma construtora. Estavam fazendo uma ponte grande, ele era irlandês e fora contratado há pouco tempo, só falava inglês. Sumira há pelo menos três meses. O máximo que a polícia conseguiu foi encontrar o seu carro, alguns dias depois, em uma periferia. Após terminar o seu trabalho, entrou em contato com a família do ruivo. O homem só tinha uma irmã que já estava vindo de Londres, contava com ela para conseguir fazer com que o engenheiro lembrasse como tudo tinha acontecido. Isso porque Amílcar estava negociando com a televisão e não podia deixar escapar essa chance de sair do buraco.
     Cabelo de fogo, na verdade chamava-se Bernard Shaw. Ele apareceu na televisão, no horário nobre, e deixou toda a audiência pasma com aquela estória que parecia até um filme e, bem ao gosto popular: muita surpresa e emoção. Na matéria do experiente jornalista Amílcar Furtado, descobriu-se até, que as estranhas palavras pronunciadas pelo nosso herói eram de um dialeto que só se falava em sua aldeia natal, no interior da Irlanda. Após o encontro com a irmã, o engenheiro se libertou do trauma e pode lembrar e contar como viera parar ali. Estava saindo do trabalho e a caminho do hotel, uma moça atravessou a rua, de repente, ele não teve tempo para nada. Depois, não se lembrava de mais nada até encontrar a irmã, a não ser que alguém, nos últimos tempos, cuidara muito bem dele, mesmo não sabendo quem ele era.
     Do outro lado da cidade, Arlete assistia a tudo atônita. A única coisa que a mulher conseguiu lembrar depois foi que o desaparecido iria embora no outro dia, pois ele queria despedir-se dos amigos e fazer a última refeição e se possível, conhecer a pessoa que salvara sua alma. Era assim que o engenheiro se sentia em relação a essa pessoa que mandava refeições para ele e dispensara tanto carinho, sem mesmo conhece-lo. Em todo esse tempo, Arlete nunca tinha feito uma comida tão boa, foi pessoalmente entregar a Deocleciano o pacote com a última refeição, só pediu segredo de sua identidade, pois não queria aparecer por ter medo do sensacionalismo criado em torno da estória. Deocleciano agradeceu em nome do engenheiro, e em seu nome também, porque não era todo dia que via aquela solidariedade.
      No outro dia, Marilu encontrou Arlete prostrada atirada no sofá, lamentou que a patroa voltasse àquela situação. Nem pôde contar a ela que o engenheiro que ela salvara havia morrido em circunstâncias suspeitas. Antes de sair, notou que Arlete estava com uma expressão sardônica no rosto.


 (*) Conheci Ênio Andrade há pouco tempo, por acaso. Conversando com ele descobri que escreve e está empenhado em concluir um romance. A meu pedido me enviou este  conto para publicar. Num contexto no qual, através das redes sociais, há tantas citações a autores famosos, muitos deles estrangeiros, escritores que vivem entre nós ficam desconhecidos mesmo quando, como é o caso, demonstram intrínseco valor literário (P.R.Baptista)
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