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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Jornais e comunidades - Nei Alberto Pies

O jornal impresso sempre cumpriu muitas funções, sobretudo nas pequenas comunidades gaúchas. Os imigrantes alemães e italianos sempre valorizaram os jornais que eram impressos nos idiomas deles. Os alemães assinavam o jornal St. Paulus-Blattt, impresso em alemão, lido e discutido entre – os letrados e interessados –, os quais, geralmente, eram lideranças das comunidades. Também assinavam o calendário, na forma de livro, denominado Ignatiuskalender. O mesmo era impresso em Porto Alegre e sob responsabilidade dos Padres Jesuítas Os imigrantes italianos, por sua vez, recebiam em suas comunidades o Jornal Correio Rio-grandense, editado a partir de 1909. Depois das celebrações dominicais, os principais títulos eram lidos para todos. Havia também havia assinaturas que eram feitas pelas famílias, diríamos mais abastadas, ou interessadas.
Tais jornais eram uma das poucas fontes de informação que eram geradas de fora dos contextos das comunidades do interior. Quando apareceu o rádio, o veículo praticamente tomou o lugar das informações, antes restrita aos jornais e aos relatos dos viajantes. O fato é que todo o jornal que era entregue na forma de assinatura, ou distribuído gratuitamente pelas prefeituras, sindicatos ou outras organizações, sempre despertava uma grande curiosidade na comunidade, principalmente por ser uma informação palpável (ilustrada com fotos, charges, pinturas a nanquim e noutras linguagens, com informações gerais e locais, que vinham ao encontro dos desafios comunitários, da organização e da produção escrita das próprias comunidades). Tudo o que vinha escrito era aceito como verdadeiro, a exemplo de outros impressos como a Bíblia, dos folhetos da celebração dominical e do livro de cantos, geralmente folclóricos e religiosos.
O jornal também cumpria funções práticas como embrulhar produtos alimentícios e frágeis, sobretudos nos bolichos, casas de comércio ou supermercados. Ao chegar nas famílias, na forma de embrulhos, os jornais cumpriam a função de informar seus leitores. Particularmente, eu era obstinado por jornais, justamente porque continham informações novas e diferentes, nem sempre muito compreensíveis ao meu entendimento. Justamente por isso, eu fui assíduo leitor dos jornais amassados, antes dos mesmos cumprirem sua última missão: acender o fogo do fogão à lenha.
Até hoje, nas comunidades do interior, o destino final do jornal, após a leitura, vai à caixa de lenha. Nas cidades, destinam-se à reciclagem, ou para cães, gatos e aves preservarem a higiene da casa. Nos centros urbanos, entopem bueiros ou servem para proteger do frio quem mora na rua. Mas mesmo antes de seu destino derradeiro, o jornal impresso ainda está disponível para cumprir função de informar e instigar curiosidades pelo mundo desconhecido.
Avalio como mágico, poderoso e instigante o poder e a influência dos jornais impressos nas pequenas comunidades. Acreditando neste poder, dez anos atrás, ajudei a construir um jornal impresso de uma rede municipal de ensino de um município do norte gaúcho com predominância de comunidades no interior. Chamava-se "Criando para encantar". Era uma publicação da Secretaria Municipal de Educação. O objetivo era contar as práticas educativas de cada escola. Em pouco tempo, tornou-se o Jornal de toda comunidade, distribuído a todas as famílias daquele município, tornando-se logo referência de informação à comunidade. Deixou de ser impresso porque dava muito trabalho.
Hoje, associo-me a jornais e revistas, impressos e virtuais, que têm como missão integrar as comunidades pelo caminho da informação. Produzir informação e jornalismo com responsabilidade social é uma das características que justificam a existência de jornais impressos, contanto que as informações neles contidos não sejam instrumentos de dominação, mas que sirvam para democratizar o conhecimento nas comunidades.  

Nei Alberto Pies, professor, escritor e ativista de direitos humanos

sábado, 9 de maio de 2015

Amores de nossas mães por Nei Alberto Pies

Escrever sobre o amor de nossas mães é um grande desafio.
O amor materno é sempre sagrado, capaz de abarcar as dimensões humanas mais ricas e contraditórias.
Sua pureza se confunde com amor radical, mas nem sempre compreendido por sua incondicional capacidade de perdoar, reatar, reconsiderar, reaprender a viver do jeito que é possível, apesar dos pesares.
Somente as mães conhecem realmente seus filhos e suas filhas. 
Por conhecê-los tanto e tão bem, são capazes de reconhecer seus desejos e potencialidades, mas também seus limites e fragilidades.
 Não raras vezes são mal interpretadas porque dedicam mais atenção e apoio para um dos seus filhos ou filhas que, justamente, mais necessita de sua ajuda, proteção e presença.
Nossas mães aprenderam e ensinaram que ser justo é dar a todos e todas as mesmas medidas, as mesmas proporções, dividindo tudo em partes iguais. 
O bolo de mãe, o melhor de todos, é sempre dividido em partes iguais para cada um de seus filhos e filhas. 
Parece que esta é sempre a fórmula mais justa de dividir os bens e artigos que possuem materialidade. Mas valerá esta mesma regra para "distribuir" carinhos, afagos, apoio e atenções? Para as mães, não. Para os filhos, sim.
Sem perceber, nossas mães fortaleceram nossos egoísmos e caíram numa cilada que, não raras vezes, volta-se contra elas à medida que os filhos, sempre diferentes, exigem que sejam tratados de maneira igualitária. 
Mas como tratar de forma igual filhos tão diferentes, com diferentes necessidades de compreensão, de apoio, de ajuda de todas as ordens, inclusive ajudas financeiras?
Em toda família com mais de um filho há um que precisa de uma presença, vigilância e cuidado maior do que o outro. 
Não é verdade que as mães amam diferente a cada um de seus filhos ou filhas e amam em diferentes intensidades, mas é fato que as mesmas dedicam-se aos filhos na proporção da necessidade que os filhos revelam para elas. 
Por isso mesmo, não se justificam as birras e incompreensões para com elas.
Não adianta a gente querer esconder de nossa mãe aquilo que a gente é. A mãe da gente não precisa de faro, nem de varinha mágica para descobrir o que se passa com a gente. Seu olhar e sua presença transpassam a nossa vida, tornando-a uma extensão.
Celebremos, pois, o amor sagrado de nossas mães. Saibamos reconhecer que o bem maior, nossa vida, foi gerado por elas. 
Saibamos reconhecer que, com a pureza de seu amor, as mães jamais seriam incapazes de atrapalhar os nossos planos, desde que estes, uma vez verdadeiros, nos ajudem a ser o que somos.
Todas as mães são únicas e a são a seu modo por conta de nós, seus filhos. Elas nos geraram, mas não puderam prever como a gente seria. Embora insistam em dividir o bolo em partes iguais, por força do hábito, elas nos provam que fazer justiça não é dividir em partes iguais, mas dar a cada um e cada uma conforme as suas necessidades.
Vida longa e saudável a todas as mães brasileiras!

(*) Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.
(Crônica publicada no livro do autor: Conviver, educar e participar nos palcos da vida).