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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

SAFATLE E AS ESQUERDAS SUICIDAS - Ricardo Almeida

Foto: Guilherme Santos/Sul21
Li o artigo “Como a esquerda brasileira morreu“, de Vladimir Safatle publicado no jornal El País, e gostaria de compartilhar algumas reflexões com vocês, pois entendo que a ousadia do autor não é um fenômeno isolado das esquerdas que se consideram órfãs no Brasil. Apesar de não concordar com muitas das suas afirmações, a começar pelo título, entendo que ele está se propondo a um bom debate e permitindo que avancemos na construção de uma estratégia sensível para as esquerdas brasileiras.

O artigo começa afirmando que uma parte das esquerdas apostava num colapso do governo Bolsonaro e que isso não aconteceu. Ou seja, ele não considera que estamos no meio de uma disputa, e sim, que chegamos ao seu fim… Depois afirma que aquilo que foi chamado de esquerda (ele fala sempre no singular, sem identificar a força de esquerda) foi inoperante e é a causa de todos os males do que acontece com o país… Como se vê, Safatle está abordando duas questões distintas e não aprofunda nenhuma delas.

Em outro parágrafo ele faz um malabarismo com as palavras ao dizer que “não que se trata de afirmar que ela (a esquerda) está diante do seu fim puro e simples”. E prossegue: “Melhor seria dizer que um longo ciclo que se confunde com sua própria história termina agora”. E conclui: “o pior que pode acontecer nesses casos é ‘não tomar ciência de seu próprio fim’”… Ou seja, é o fim, mas ela ainda não está morta e, ao mesmo tempo, não tomou consciência do seu próprio fim. Deu pra entender?

Depois, ele acerta ao perguntar: qual é esse ciclo que termina? O que esse ciclo representou? Quais são os seus limites? Após ler todo o artigo dá para perceber que ele sugere uma autocrítica das esquerdas, e que elas aprendam com as experiências do passado, principalmente com as estratégias de conciliação de classes dos períodos pré 1964 e dos governos de coalizão, patrocinados pelo PT, pós 2003.

O artigo afirma que a esquerda brasileira não é mais capaz de impor outro horizonte econômico-político, mas não entra no debate sobre as estratégias das esquerdas (no plural), quase todas caracterizadas por objetivos meramente eleitorais e imediatos. Esse deveria ser o debate fundamental das esquerdas brasileiras e Safatle perdeu a oportunidade de expor as suas propostas para a atual conjuntura… O que fazer? Com quem se articular? Qual é a pauta que unifica e mobiliza amplos setores populares?

Ele percebe que a maior prova da fraqueza das esquerdas brasileiras é a falta de debate público, mas resolve abdicar da disputa pelo nosso futuro. Ou seja, Safatle identifica um vazio na política brasileira, pela falta de uma alternativa de esquerda realmente crível neste momento e, para dar razão ao título do artigo, ele se inclui nesse suicídio coletivo. Em momento algum ele reconhece as diferentes manifestações que ocorreram, os debates que tivemos durante a campanha presidencial de 2018 e nem a campanha Lula Livre. O artigo cita a França e a sequência de greves e manifestações para contrapor ao que vimos no Brasil, mas poderia muito bem ter citado o Chile, a Bolívia e o Equador, que são exemplos mais próximos de resistência popular e democrática, e que nos enchem de esperança.

Penso que Safatle age como aquele pai que percebe a vida errante do seu filho e lança algumas perguntas no ar: onde foi que erramos? Qual é a razão da situação que nos encontramos? Esse devia ser o debate a ser travado pelas esquerdas e que Safatle passa muito pela tangente. Ao ficar apenas procurando “culpados” o artigo não contextualiza os fenômenos complexos.

O filósofo não poupa ninguém ao afirmar que toda a esquerda brasileira conhece apenas um horizonte de atuação: o “populismo de esquerda”. E diz que esse “populismo de esquerda” se esgotou sem que a esquerda nacional tenha se demonstrado capaz de passar para outra fase ou mesmo de imaginar o que poderia ser “outra fase”. Até dá para entender o que ele quer dizer com “populismo de esquerda”, mas o que se poderia esperar de um governo de coalizão e de um Congresso dominado pelas forças conservadoras? Acredito que era possível avançar muito mais no controle social, por exemplo, e em algumas reformas fundamentais, como a reforma política etc. Sabemos que hoje, até o Lula reconhece que faltou realizar muito mais e o filme de Petra Costa é um registro da ingenuidade que a esquerda teve quando assumiu o governo e pensava estar no poder.

Então cabe uma pergunta: qual seria a “outra fase” a que Safatle se refere? Seria um tipo de assalto ao poder? Ele sugere convergir em uma figura e eu entendo que este é o grande problema do seu “populismo de esquerda”, pois passaremos a depender de “uma figura que seja capaz de representar e vocalizar esta emergência de um novo sujeito político”. Entendo que, para superar “esta fase”, precisamos trabalhar nas diferentes regiões e territórios para reconhecer as “figuras” que sejam capazes de representar e vocalizar as emergências dos novos sujeitos políticos. Não importa se a consciência do povo ainda é aquela que ele está aprendendo nas contradições do sistema. Afinal, estamos vivendo num sistema capitalista, e de um país periférico, e é óbvio que vamos nos dar de frente com uma mistura de JBS Friboi com MST, e em outras, com uma mistura de Proudhon com Walt Disney, etc etc etc… Ou seja, não existe e nunca existirá uma consciência geral e milagrosa do povo de um país ou de um território!

Safatle foi até o passado para buscar uma das “figuras” mais lúcidas (segundo ele) da nossa história, mas omitiu que Marighela defendeu uma aliança com a burguesia nacional quando fazia parte do PCB, e que o seu diagnóstico sobre a conciliação de classes somente ocorreu num segundo momento, próximo ao seu assassinato pelas forças da repressão. Por que será que as esquerdas brasileiras se negam a refletir sobre as táticas e estratégias adotadas no presente e no passado?

O autor do artigo também se equivoca ao afirmar que o governo Goulart era de esquerda, e ignora que as esquerdas brasileiras, até o surgimento do PT nos anos 1980, agiram sempre como forças auxiliares dos governos que representavam a resistência e a relutância da burguesia nacional. Foi o golpe de 1964 que acabou com a ilusão de uma revolução democrática capitaneada pela burguesia nacional e, foi somente em 2003 que uma parte das esquerdas venceu as eleições nacionais e formou um governo de coalizão que promoveu a mais longa experiência de democracia e de inclusão social nos cento e poucos anos de república. Quem ainda não entendeu que o golpe de 2016 foi uma resposta da burguesia nacional e do capital internacional aos avanços que conquistamos, não reconhecerá e não contextualizará a crise econômica e política em que nos encontramos.

A parte mais lúcida da reflexão é quando o autor reconhece que as forças de esquerda sempre estiveram despreparadas para os golpes, sem capacidade alguma de reação efetiva diante dos retrocessos que se seguiram. No entanto, ele não diz que somente nos anos 1970, com a industrialização do país, é que surgiu uma forte classe operária no Brasil e que houve o envolvimento de amplos setores populares, como professores, estudantes, pequenos comerciantes, profissionais liberais etc, na luta política. O artigo também ignora a atual mudança na estrutura de classes no Brasil e no mundo, provocada pela revolução digital tecnológica sem precedentes patrocinada pelos donos do capital.

O artigo afirma que a esquerda brasileira fez o mesmo erro com o final da ditadura militar e com o advento da Nova República. No entanto, quem tem boa memória, vai lembrar que as esquerdas brasileiras (no plural) tinham posições diferentes em relação à Nova República, e que o PCB e o PCdoB, por exemplo, defendiam uma estratégia de conciliação de classes. Por seu lado, o novato PT assumiu uma posição radicalmente oposta, e acumulou algumas derrotas decisivas, como a Anistia, a Constituinte e as Diretas Já!

É verdade que as esquerdas foram se domesticando após algumas vitórias nos municípios e nos estados, principalmente com a renovação despolitizada dos seus quadros políticos, e com a chamada “governabilidade”, defendida pela chapa Lula-José de Alencar. Depois, veio o PMDB de Michel Temer e de Romero Jucá, e os erros do segundo governo Dilma, com Eduardo Cunha na presidência da Câmara dos Deputados.

Nesse sentido, Safatle percebe que houve um “movimento em direção a um jogo de alianças entre demandas sociais e interesses de oligarquias locais descontentes tendo em vista mudanças ‘graduais e seguras’”, mas não relaciona isso ao fato dos intelectuais brasileiros evitarem sujar os pés e a bunda de barro ao se misturar às lutas populares, quilombolas, indígenas e das chamadas “periferias”. Quando diz que “a esquerda” morreu, ele está se colocando fora da disputa pela hegemonia política-cultural. Apesar de bem intencionado, suas críticas “às esquerdas em geral”, infelizmente, acabam caindo no vazio, pois ele não identifica os nomes das forças políticas em questão.

Entendo que Safatle tem até um pouco de razão, mas que as suas críticas “à esquerda” permanecem no campo meramente acadêmico, de constatação, e pouco contribuem para modificar as estruturas e as circunstâncias que vivemos no Brasil e no mundo. Concordo que nós, das esquerdas brasileiras, ainda não conseguimos fazer o dever de casa e que agora estamos pagando muito caro por isso… Mas acredito que o futuro e a democracia ainda estão em disputa, tanto aqui como na Argentina, de Peron, no Chile, de Allende, no Uruguai, de Seregni, na Venezuela, de Bolívar, e na França, de Danton.

Ao afirmar que “todo fascismo nasce de uma revolução abortada”, Safatle joga a culpa nas esquerdas e revela que ainda não entendeu a dinâmica da luta de classes internacional, a crise do sistema capitalista mundial e a revolução digital tecnológica em curso. Mais uma vez fica claro que ele evita contextualizar os fenômenos e prefere procurar os “culpados”… Ao invés de analisar as relações sociais, culturais e econômicas, que são capazes de revelar a máxima compreensão possível da realidade, ele joga todo o ônus na culpa e na incapacidade de elaboração da “esquerda brasileira”.

Concordo quando ele diz que é preciso polarizar com o governo Bolsonaro, mas é exatamente isso que ele não faz. Safatle quer alguém para carregar o caixão e ficar em silêncio frente ao suicídio das esquerdas, ao invés de revolucionar e promover um debate público objetivo. Preferiu elaborar reflexões abstratas e não apontar caminhos que sejam capazes de nos tirar dessa difícil situação.

Quem acompanha as publicações de Safatle sabe que a generalização é uma característica das suas análises e reflexões. A maioria das suas críticas, até a publicação desse artigo (que ele disse que não gostaria de ter escrito), era endereçada unicamente aos governos de coligação do PT. Em dezembro de 2019, ele chegou a afirmar que estávamos vivendo um momento de rebelião iminente, mas agora, durante a maior greve dos petroleiros, em defesa do emprego, do patrimônio público e da soberania nacional, resolveu se juntar às pessoas que se contentam em polarizar sobre algum aspecto negativo das esquerdas em geral.

Nesse artigo, Safatle acabou ignorando que o verdadeiro aprendizado das organizações surge da reflexão sobre as experiências vividas, de dentro e não de fora dos movimentos reais, a partir da práxis (consciência prática, histórica e sensível) coletiva, e não apenas da leitura dos livros e dos desabafos. Nesse sentido, cabe um elogio ao autor pela ousadia em propor esse debate radical (a morte é radical), mas não podemos deixar de destacar a importância do engajamento nas nossas experiências de vida… Até porque os petroleiros estão aí para provar que sempre existirá resistência política após a morte das esquerdas suicidas.

(*) Ricardo Almeida - Consultor em Gestão de Projetos TIC

FONTE 

terça-feira, 10 de setembro de 2019

ALERTA, DESPERTA - Ricardo Almeida


A derrota do movimento Diretas Já, em 1984, e o "movimento por direitos", de 2019, possuem algumas semelhanças para quem tem memória. Lá o movimento das ruas foi, aos poucos, canalizado para o parlamento e resultou no Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves, como presidente, e Sarney, como vice. Este movimento "por direitos" (abstratos, pois não diz quais são os direitos defendidos) teve a participação de diversos golpistas e de alguns representantes da esquerda (Flávio Dino) e centro-esquerda (Ciro Gomes).

Como o PT e o PSOL não enviaram representantes, o Luís Nassif, o The Intercept Brasil e algumas pessoas estão questionando a ausência "só do PT" e acusando o partido de querer manter a hegemonia dos movimentos. Em primeiro lugar é preciso deixar claro que ainda não se tratava de um movimento, mas de uma reunião de cúpula sem uma proposta clara e com a participação de vários golpistas. Em segundo, é fundamental destacar que no dia seguinte foi realizada uma ampla reunião com todos os partidos de esquerda, centro-esquerda e movimentos sociais (MST, MTST, UNE, UBES, ABI, Movimentos Negros etc.) que lançou um Manifesto e uma agenda de lutas nos estados EM DEFESA DA SOBERANIA NACIONAL.

Não dá para ignorar que no encontro por "direitos abstratos" foi proibido falar em Lula Livre e que somente o Flávio Dino acabou fazendo uma rápida referência ao prisioneiro político.

Em suma, enquanto as pessoas e as forças de esquerda e de centro-esquerda não se unirem em torno de um programa mínimo (soberania nacional é um dos eixos principais) não haverá unidade verdadeira e continuaremos depositando a nossa esperança nos velhos e conhecidos traidores.

Alerta, desperta, ainda cabe sonhar!

domingo, 11 de agosto de 2019

QUEM TEM MEDO DE BOLSONARO? - Ricardo Almeida


Jair Messias Bolsonaro é um homem sincero, pois expõe as suas grosserias e defende abertamente a entrega do país para os EUA. Hoje, passadas as eleições, qualquer pessoa em sã consciência sabe que o “mito” construiu a sua carreira política em torno de declarações absurdas contra os direitos humanos e em favor da ditadura militar. Essas pessoas assistiram o ex-deputado rasgar a Constituição, defender a tortura, discriminar as mulheres, os artistas, as comunidades quilombolas, os descendentes dos povos africanos e a comunidade LGBTI.

Durante as eleições de 2018, o candidato também praticou diversos crimes civis e eleitorais ao abusar do poder econômico, como foi o caso das doações ilegais de empresas, a disseminação de calúnias e de informações falsas sobre os seus adversários e as ameaças de morte às forças de esquerda.

Agora, mesmo na presidência da República, Bolsonaro não parou de soltar os seus demônios, seja quando ironiza a morte de 57 presidiários no Pará, ataca o presidente da OAB e a memória do seu pai, desaparecido durante o regime militar, ou quando nega o assassinato do cacique Emyra Wajãpi, morto por garimpeiros no Amapá. O “mito” também não vê nada de errado em empregar parentes, indicar o filho para a embaixada do Brasil nos EUA, em “dar carona” num helicóptero da FAB para os seus amigos, no fato de que o seu parceiro Fabrício Queiroz ter movimentações financeiras incompatíveis com o salário de motorista e em reduzir os investimentos na região nordeste por discordar da política de alguns governadores que foram eleitos democraticamente.

Como se estivesse cumprindo uma ordem superior ou como um robô programado, Bolsonaro sempre quer transparecer a imagem de um “machão” com a intenção de provocar medo nas pessoas. Por trás dessa performance está a inteligência de Steve Bannon e dos seus mentores no estrangeiro, que costumam ampliar e espalhar as suas ameaças pelas redes sociais, pois o “ex-capitão” não consegue sequer encarar os seus críticos e/ou adversários políticos. Foi assim, ao fugir dos debates eleitorais e também, agora, quando se vê obrigado a enfrentar uma pergunta mais dura dos jornalistas.

Há quem diga que se trata de um problema psíquico. Também dizem que isso faz parte da cultura de uma parcela do povo brasileiro, de uma forma de ver o mundo, e ainda existe quem não tenha dúvidas de que tudo não passa de uma ideologia de viés nazista. São pontos de vistas diferentes (psicanalítico, cultural, ideológico e político) que contém um elevado grau de veracidade. Uma visão dialética e holística do fenômeno não trataria essas questões de forma excludente.

Hannah Arendt, por exemplo, no livro Eichmann em Jerusalém, afirma que o burocrata não percebe o que faz em função da sua incapacidade de pensar do ponto de vista de outra pessoa. Segundo Arendt, na falta dessa capacidade cognitiva, Eichmann “cometeu (crimes) em circunstâncias que tornaram quase impossível para ele saber ou sentir que estava errado”. Por outro lado, R. D. Laing, no livro Laços, com uma consciência prática e sensível, amplia essa reflexão ao dizer que “algo de errado deve haver com ele, pois é certo que assim não agiria se algo de errado não houvesse. […] Ele não se apercebe de que há com ele algo de errado porque uma das coisas que nele andam erradas é não se aperceber de que há com ele algo de errado”.

No entanto, partindo do princípio de que ninguém nasce odiando outra pessoa, e que, para odiar, as pessoas precisam aprender a odiar, a educação do jovem Bolsonaro e de uma parte da população brasileira foi baseada no ódio, no desprezo e na violência. Se não fosse assim, eles não aprovariam os crimes cometidos durante o regime militar, como é o caso de Bolsonaro e de Mourão, em relação aos ditadores e ao coronel Brilhante Ustra. Também não banalizariam o assassinato de ativistas ambientais, o genocídio da população negra e/ou indígena, o feminicídio, a proliferação de agrotóxicos nos alimentos que consumimos etc.

Por isso, Bolsonaro e seus aliados devem ser julgados pelos crimes cometidos e pelas políticas implementadas, e não apenas como indivíduos incapazes de raciocinar. Caso contrário, a entrega da previdência pública para os banqueiros nacionais e internacionais, assim como a venda da Amazônia e de terras para os estrangeiros, entre outras atrocidades poderão ser tratadas apenas como se fizessem parte de um jogo de videogame, em que temos diversas vidas para desperdiçar.

Também é fundamental considerar que Bolsonaro era o único candidato antissistema, e que ele acabou se tornando o preferido dos donos do capital apenas para evitar uma nova vitória do PT nas eleições de 2018. Portanto, ao personalizar as análises políticas, muitas pessoas acabam ignorando que os verdadeiros estrategistas queriam, na verdade, acabar com os direitos dos trabalhadores brasileiros, realizar uma reforma tributária favorável ao grande capital e tomar conta do Pré-Sal e de outras das nossas riquezas. Ou seja, para eles não importava tanto quem seria o novo presidente do Brazil.

Mas, como a história não anda em linha reta, aos poucos, apesar do esvaziamento e da dispersão das organizações de base, à medida que as pautas negativas foram se concretizando, uma parte da população – antes silenciosa – começou a se indignar com as consequências dessas políticas nas suas vidas e nas vidas dos seus filhos, netos e amigos. Até os pequenos monstros acabaram sumindo das ruas… O MBL, por exemplo, e outros oportunistas já estão pulando do barco com a clara intenção de se salvar politicamente e também de preservar a agenda neoliberal. E o “mito”, ao se sentir encurralado, como qualquer animal selvagem, ameaça com mais crueldades, com o propósito de agitar aquela parcela da população que ainda sonha em alimentar os seus bichinhos de estimação.

Se Bolsonaro gosta de bater continência para a bandeira norte-americana e diz que nós precisamos receber uma educação rígida e hierárquica como a dele, é porque ele foi treinado para ser um serviçal e acredita que vai conseguir impor novamente pela força as vontades de um império em declínio. Creio que o “mito” está muito enganado, pois eles não combinaram com os russos e nem com os chineses, e muito menos com as novas gerações nascidas na era da democracia, da informação e do conhecimento.

É preciso considerar que Bolsonaro já conseguiu realizar boa parte do seu sonho, que era o de constar nos livros de história do Brasil e da desumanidade. Portanto, se as forças democráticas e populares compreenderem essa nova realidade internacional e como se dão as relações econômicas, políticas e culturais num mundo globalizado, o golpe poderá fracassar e o “mito” será descartado, assim como já ocorreu com outros tantos políticos.

Há uma grande possibilidade de, após a aprovação do desmonte da previdência pública e da reforma tributária, os verdadeiros golpistas abandonarem o “mito”, seus filhos e alguns dos seus principais aliados. Como sempre acontece, a sociedade conservadora brasileira também poderá continuar afirmando que o “mito” foi muito útil para o Brasil, que o “ex-capitão” não foi descartado pelo exército brasileiro e até que brilhou na “carreira” política, como se fosse uma profissão.

Por isso mesmo, o desafio da militância de esquerda é desconstruir esse e outros mitos ideológicos, de vieses religiosos e nacionalistas, e substituí-los por uma consciência histórica, prática e sensível. O historiador Eric Hobsbawn, por exemplo, afirmou que, se ele fosse um jovem latino-americano, poderia ser tentado a investigar o impacto do seu continente sobre o resto do mundo (…) desde 1492, passando pela contribuição material a tantos países, como metais preciosos, alimentos e remédios, até o efeito da América Latina sobre a cultura moderna e a compreensão do mundo, influenciando intelectuais, como Montaigne, Humboldt e Darwin.

Seguindo essa lógica global e sistêmica, quem quer mudar a cultura política do povo brasileiro não deveria depositar toda a responsabilidade em Bolsonaro, pois isso acaba fortalecendo ainda mais os poderes do “mito”, ao invés de questionar o sistema de exploração que está em curso. Quem tem medo de Bolsonaro e o responsabiliza como único culpado por toda essa desgraça que recai sobre o povo brasileiro, precisa ler ou reler as lições de As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, e do didático História sincera da República, de Leôncio Basbaum, pois nunca é tarde para cair na real.

Como as lutas e as experiências ensinam mais do que os livros, os discursos e as postagens nas redes sociais, as pessoas e as organizações precisam mobilizar e defender a verdade. Lembrem-se de que, mais dias, menos dias, as fraudes eleitorais de Moro e Dalagnoll, reveladas pelo The Intercept Brasil, serão comprovadas e que, em nome da justiça, da soberania nacional, da democracia e dos direitos do povo brasileiro, defender a anulação das eleições de 2018 e de todas as decisões de Temer e de Bolsonaro representará sempre um ato de dignidade e de ousadia.

Ricardo Almeida - Consultor em Gestão Projetos TIC


sábado, 8 de julho de 2017

MÃOS À OBRA, AOS CORAÇÕES E MENTES - Ricardo Almeida


Tem dias que bate um desânimo, pois parece que estamos sucumbindo por excesso de postagens nas redes sociais (sem ações concretas) e por reproduzir uma cultura política fria, muito influenciada pela cultura “das celebridades”, formada apenas para consumir informações, tirar selfies e assistir ao espetáculo.
Não há dúvidas de que é fundamental compartilhar opiniões políticas, existenciais, musicais, futebolísticas etc e tal… Mas, por que não refletir também junto a outras pessoas? Por meio de ações presenciais podemos aprofundar e combinar ações que permitirão superar obstáculos e mudar esta dura realidade.
É nos fóruns presenciais que passamos a reconhecer e a inserir elementos objetivos, subjetivos e simbólicos na nossa análise, e a perceber a importância dos diferentes atores sociais com as suas diferentes visões de mundo. Essa atitude de reunir-se é fundamental para quem quer abandonar aquela velha mania de ser “técnico de futebol” e ter opinião fechada sobre quase tudo. Somente assim vamos perceber que de nada vale contrapor a todo custo a opinião do “outro”, apenas para provocá-lo, e que a nossa realidade é diversificada, cheia de contradições e de influências étnico-culturais para ser reduzida a uma homogeneidade política e cultural.
Na verdade, ainda precisamos reconhecer o descompasso que existe entre a mentalidade colonial europeia que nos foi imposta e a mentalidade mítica/mágica da realidade sul-americana, com as influências dos povos indígenas, africanos e orientais que sempre estiveram por aqui. E que essa conjunção entre a razão e os mitos será o fio da meada para a compreensão e aquisição de novas sensibilidades e habilidades. Para quem está disposto, é claro!
Oportunidades como esta nos lembram e advertem que ainda estamos formando gerações e gerações de pessoas passivas, que só pensam em soluções egoístas e criam seus filhos e netos em quartos fechados. Que esse incentivo ao isolamento e ao consumo só serviu para alimentar os anunciantes de programas de TV, algumas seitas e templos religiosos com as suas promessas de prosperidade.
Portanto, é preciso combater todas essas apologias aos assuntos insignificantes, pois eles se tornaram práticas comuns em diversos programas de rádio, de televisão, na internet e também em algumas rodas sociais. Trata-se de uma guerra de (desin)formação que deixou a grande maioria dos brasileiros e brasileiras  confusa e desorientada.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, em função dessa desinformação midiática, ainda não conseguimos o reconhecimento democrático da diversidade cultural e política existente. As disputas pela verdade absoluta ainda persistem, em torno de siglas e cargos em gabinetes, e atrapalham a viabilização de planos e projetos unificados. Avançamos muito pouco na unidade para as mobilizações contra o golpe midiático-parlamentar. Ao menos, se comparadas às que ocorrem em outros estados brasileiros. Apesar dos pequenos avanços obtidos, o fantasma da disputa entre chimangos e maragatos ainda paira sobre os campos sulinos.
Está mais do que na hora de acordar para uma verdadeira práxis (segundo Marx, uma sensibilidade prática, histórica e consciente) política, pois os desmandos dos governos e dos gabinetes não vão desaparecer como num passe de mágica. Lembre-se que o Paraíso e a Terra Prometida foram criações de um pensamento maniqueísta e idealista que está nos atormentando e evitando encontrarmos o que temos de melhor dentro de cada um de nós. Precisamos superar a fase dos “reunismos partidários” (reuniões de cúpula, sem discussão sobre projetos junto à sociedade), abrir as associações, entidades sindicais e estudantis, e acabar de vez com os “vanguardismos”.
Enfim, agora que já sabemos que esse jogo não tem fim, também não podemos ficar na plateia torcendo para que o monstro saia do lago, que surjam novos messias ou que os juízes façam uma leitura correta das regras definidas. É preciso entender a complexidade da conjuntura (municipal, estadual, nacional e internacional), e propor a máxima convergência possível entre os diferentes projetos políticos, pessoais e/ou coletivos, que desejam construir uma nova sociedade. E isso passa necessariamente pela defesa intransigente dos nossos direitos, mas também pela realização dos nossos melhores sonhos e fantasias. Mãos à obra, aos corações e às mentes!
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(*) Ricardo Almeida é Consultor em Gestão de Projetos e uso de tecnologias da Informação e da Comunicação.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

BRASÍLIA E AS REBELIÕES - Ricardo Almeida


Cada vez eu aceito mais aquela tese de que Brasília foi projetada para evitar rebeliões.
Fica longe de quase tudo, e aquelas avenidas largas permitem a rápida circulação de comboios.
Se essas decisões arbitrárias - desmonte da previdência pública, reforma escravista e possibilidade de prorrogar as eleições - ocorressem no Rio de Janeiro, não sei qual seria a reação da população local. 
Acho que seria bem diferente de quem mora no Distrito Federal.
Teriam mais possibilidades de fuga da repressão, etc etc.
Mas, trata-se apenas de uma especulação...
Por enquanto, eu só estou sonhando com uma enorme invasão de Brasília.
Assim, como foi a Queda da Bastilha, durante a Revolução Francesa,
ou coisa parecida, ou coisa parecida...
Niemeyer e Lúcio Costa que me desculpem, mas é a minha humilde opinião!