A eleição de um vereador investigado para comandar Ética
e Meio Ambiente em Pelotas não é um paradoxo, mas a síntese brutal de um
projeto de poder
Na primeira sessão legislativa do ano na Câmara Municipal de
Pelotas, o enredo encenado foi de um realismo tão cru que dispensou qualquer
sutileza ficcional. O ato central: a eleição do vereador Cauê Fuhro Souto para
presidir, simultaneamente, as comissões de Ética e Decoro Parlamentar e de Meio
Ambiente. A plateia, o público, é convidada a digerir uma contradição em estado
puro. O novo presidente da Ética é alvo de investigação do Ministério Público
por, justamente, suposta improbidade administrativa e falta de decoro. O novo
czar do Meio Ambiente tem um histórico registrado de votos contra medidas de
proteção ambiental na cidade.
À primeira leitura, um absurdo. Um equívoco grotesco da
política local. No entanto, uma análise mais detida, inspirada nas ferramentas
mais incisivas da crítica social, revela que este não é um furo no roteiro, mas
seu clímax perfeito. O que se vê em Pelotas é a encenação acabada de como uma
elite política consolidada utiliza os instrumentos da democracia formal para
exercer uma ditadura substantiva do seu projeto.
A trama tem seus personagens bem definidos. No ano anterior,
as mesmas comissões eram lideradas por Jurandir Silva, mestre em agronomia e
líder do governo na Casa – uma figura de reconhecida afinidade temática com a
pasta ambiental. A virada de ano traz uma reviravolta: uma maioria de direita,
coesa, promove a troca dos bastidores. O resultado é uma fusão de cargos que
simboliza a união dos interesses que ali passam a ser defendidos: a
auto-preservação e o desimpedimento.
A Comissão de Ética, sob a batuta de um investigado, deixa
de ser um órgão de controle para tornar-se um aparelho de blindagem. Controlar
o processo é o primeiro passo para neutralizá-lo. Já a Comissão de Meio
Ambiente, sob o comando de um aliado de setores frequentemente em rota de
colisão com a preservação, transforma-se de potencial arena de debate em câmara
de ratificação. A mensagem é tão clara quanto cifrada: as regras do jogo –
sejam elas morais ou ecológicas – serão escritas por aqueles que mais têm a
ganhar com sua flexibilidade.
Aqui, a narrativa jornalística precisa recorrer à chave da
crítica materialista para decifrar o código. O suposto “descaminho” de verba
não é um detalhe biográfico; é a potencial materialização de uma prática: a
conversão do cargo público em capital privado. Os votos contra a proteção
ambiental não são mera opinião; são a expressão legislativa de alianças com o
agronegócio, a especulação imobiliária ou a indústria poluidora, para quem a
natureza é um custo a ser externalizado para a população.
A genialidade perversa do roteiro está em sua dialética
invertida. Ele resolve contradições aparentes fundindo-as em uma só figura. A
contradição entre ética e investigação é dissolvida pelo poder do cargo. A
contradição entre proteção ambiental e ataques a ela é anulada pelo controle da
pauta. A “vontade da maioria” esvazia-se de qualquer conteúdo que não seja a
vontade de poder daquela mesma maioria.
O caso de Pelotas transcende o anedótico. Ele é um
micro-romance do poder brasileiro, uma peça em um ato que se repete, com
variações, em inúmeras casas legislativas pelo país. É a demonstração de que,
para certas elites políticas locais, o legislativo não é um espaço de
representação plural, mas um feudo. Um feudo onde se distribuem cargos não por
competência, mas por lealdade; onde se domina a pauta não para debater, mas
para silenciar; e onde as contradições mais flagrantes são exibidas não por
descuido, mas como uma declaração de força.
A conclusão que se impõe ao leitor não é de perplexidade,
mas de reconhecimento. O escândalo não é que isso tenha acontecido, mas que se
enxergue, pela lente da crítica, que esta seja a norma operacional. O
verdadeiro drama não está na eleição em si, mas no que ela revela: a distância
abissal entre o ritual democrático e a prática oligárquica. Enquanto a
população espera por ética e defesa do meio ambiente, o palco da Câmara é
ocupado por uma peça cujo título poderia ser: “Como Fazer das Regras a Arma que
As Destrói”. E o mais triste é que, para a maioria de direita em cena, não se
trata de ficção. É a pura e crua realidade do seu poder como ato final.
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