sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

OPINIÃO - Rogério Peres

 A eleição de um vereador investigado para comandar Ética e Meio Ambiente em Pelotas não é um paradoxo, mas a síntese brutal de um projeto de poder

 Na primeira sessão legislativa do ano na Câmara Municipal de Pelotas, o enredo encenado foi de um realismo tão cru que dispensou qualquer sutileza ficcional. O ato central: a eleição do vereador Cauê Fuhro Souto para presidir, simultaneamente, as comissões de Ética e Decoro Parlamentar e de Meio Ambiente. A plateia, o público, é convidada a digerir uma contradição em estado puro. O novo presidente da Ética é alvo de investigação do Ministério Público por, justamente, suposta improbidade administrativa e falta de decoro. O novo czar do Meio Ambiente tem um histórico registrado de votos contra medidas de proteção ambiental na cidade.

 À primeira leitura, um absurdo. Um equívoco grotesco da política local. No entanto, uma análise mais detida, inspirada nas ferramentas mais incisivas da crítica social, revela que este não é um furo no roteiro, mas seu clímax perfeito. O que se vê em Pelotas é a encenação acabada de como uma elite política consolidada utiliza os instrumentos da democracia formal para exercer uma ditadura substantiva do seu projeto.

 A trama tem seus personagens bem definidos. No ano anterior, as mesmas comissões eram lideradas por Jurandir Silva, mestre em agronomia e líder do governo na Casa – uma figura de reconhecida afinidade temática com a pasta ambiental. A virada de ano traz uma reviravolta: uma maioria de direita, coesa, promove a troca dos bastidores. O resultado é uma fusão de cargos que simboliza a união dos interesses que ali passam a ser defendidos: a auto-preservação e o desimpedimento.

 A Comissão de Ética, sob a batuta de um investigado, deixa de ser um órgão de controle para tornar-se um aparelho de blindagem. Controlar o processo é o primeiro passo para neutralizá-lo. Já a Comissão de Meio Ambiente, sob o comando de um aliado de setores frequentemente em rota de colisão com a preservação, transforma-se de potencial arena de debate em câmara de ratificação. A mensagem é tão clara quanto cifrada: as regras do jogo – sejam elas morais ou ecológicas – serão escritas por aqueles que mais têm a ganhar com sua flexibilidade.

 Aqui, a narrativa jornalística precisa recorrer à chave da crítica materialista para decifrar o código. O suposto “descaminho” de verba não é um detalhe biográfico; é a potencial materialização de uma prática: a conversão do cargo público em capital privado. Os votos contra a proteção ambiental não são mera opinião; são a expressão legislativa de alianças com o agronegócio, a especulação imobiliária ou a indústria poluidora, para quem a natureza é um custo a ser externalizado para a população.

 A genialidade perversa do roteiro está em sua dialética invertida. Ele resolve contradições aparentes fundindo-as em uma só figura. A contradição entre ética e investigação é dissolvida pelo poder do cargo. A contradição entre proteção ambiental e ataques a ela é anulada pelo controle da pauta. A “vontade da maioria” esvazia-se de qualquer conteúdo que não seja a vontade de poder daquela mesma maioria.

 O caso de Pelotas transcende o anedótico. Ele é um micro-romance do poder brasileiro, uma peça em um ato que se repete, com variações, em inúmeras casas legislativas pelo país. É a demonstração de que, para certas elites políticas locais, o legislativo não é um espaço de representação plural, mas um feudo. Um feudo onde se distribuem cargos não por competência, mas por lealdade; onde se domina a pauta não para debater, mas para silenciar; e onde as contradições mais flagrantes são exibidas não por descuido, mas como uma declaração de força.

 A conclusão que se impõe ao leitor não é de perplexidade, mas de reconhecimento. O escândalo não é que isso tenha acontecido, mas que se enxergue, pela lente da crítica, que esta seja a norma operacional. O verdadeiro drama não está na eleição em si, mas no que ela revela: a distância abissal entre o ritual democrático e a prática oligárquica. Enquanto a população espera por ética e defesa do meio ambiente, o palco da Câmara é ocupado por uma peça cujo título poderia ser: “Como Fazer das Regras a Arma que As Destrói”. E o mais triste é que, para a maioria de direita em cena, não se trata de ficção. É a pura e crua realidade do seu poder como ato final.

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